terça-feira, 28 de outubro de 2014

Meio Ambiente: O grande derrotado nas eleições 2014?


por Janes Jorge e Paulo Henrique Martinez*
 Meio Ambiente: O grande derrotado nas eleições 2014?
Marina Silva, liderança que fez sua trajetória política vinculada a essa problemática ganhava destaque e Eduardo Jorge (PV), sem amarras de um candidato que concorre para vencer, tinham liberdade para tocar em pontos sensíveis, mas essa expectativa não se concretizou. Leo Cabral/ MSILVA Online

O debate sobre o meio-ambiente foi um dos maiores derrotados neste ano apesar de possuir forte dimensão crítica na sociedade contemporânea
Encerradas as eleições é o momento de se fazer uma avaliação dos seus resultados para além da vitória ou derrota dos diferentes candidatos. Em um balanço assim, fica evidente que o debate sobre o meio-ambiente foi um dos maiores derrotados neste ano de 2014, ao menos para aqueles que acreditam que a problemática ambiental possui forte dimensão crítica da sociedade contemporânea.
Na verdade, no início do processo eleitoral parecia que as questões ambientais iriam para o centro da disputa. No plano nacional Marina Silva, liderança que fez sua trajetória política vinculada a essa problemática ganhava destaque e Eduardo Jorge, pelo Partido Verde, sem amarras de um candidato que concorre para vencer, tinha liberdade para tocar em pontos sensíveis, evitados pelos candidatos competitivos. No mais populoso e rico estado da federação, São Paulo, uma grave crise hídrica, que ainda deve perdurar, oferecia a oportunidade para que o meio-ambiente no Brasil aparecesse como realmente é, ou seja, como uma questão que diz respeito à vida cotidiana da maioria da população e não assunto de pequenos grupos.
No decorrer do processo eleitoral, talvez por sua própria dinâmica cada vez mais vinculada à linguagem publicitária, talvez pelo empobrecimento do contexto político atual, essa expectativa não se concretizou. Pelo contrário, o debate ambiental não apenas se esvaziou como regrediu quase a ponto de negar a sua própria legitimidade social. Marina Silva que historicamente se vinculara às lutas dos chamados “povos da floresta” e mantivera claro compromisso com a convergência da justiça social e da proteção ao meio ambiente adotou um discurso ambíguo e acomodatício, como se fosse possível discutir o meio ambiente sem confrontar ideias e interesses solidamente instalados na vida nacional. É o caso do agronegócio ou das grandes obras de infraestrutura tão importantes para a economia do país, mas que ainda causam fortes impactos sociais e ambientais. No limite, todo um modelo de sociedade e desenvolvimento poderia ser repensado e, com isso, se vislumbrar ações e caminhos transformadores.
Mas no caso de Marina Silva foi ainda pior. Ao se alinhar às propostas econômicas de orientação neoliberal e a personalidades do mundo dos negócios a candidata deslocou o debate ambiental para a direita, aumentando a histórica e anacrônica desconfiança que a problemática enfrenta em partidos de esquerda e movimentos sociais. Ou seja, meio-ambiente e capitalismo verde pareceram se equivaler no fim das contas. Eduardo Jorge, por sua vez, não enfatizou as questões ambientais e ganhou notoriedade por sua defesa da descriminalização das drogas.
No segundo turno das eleições presidenciais a problemática ambiental teria sido esquecida completamente se a crise de água não tivesse se agravado em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. Mesmo assim o breve debate reproduziu a simplicidade que caracterizou a disputa estadual, quando questões centrais, como o avanço descontrolado da mancha urbana em terras paulistas ou os graves problemas de coleta e tratamento de esgoto, foram esquecidas. Por um lado, o candidato do governo estadual e seus aliados sugeriam que responsabilidade pela crise era da natureza ou resultado da negligência dos consumidores residenciais paulistas. Por outro lado os candidatos oposicionistas pareciam enfatizar a falta de obras de engenharia. Não parece exagero afirmar que nada se avançou na consciência pública depois de fechadas as urnas.
Sendo assim, os próximos anos serão de grande desafio para que a agenda ambiental retorne ao centro dos debates nacionais com todo seu potencial questionador e transformador. Para tanto cabe à universidade um lugar estratégico, pois é a instituição capaz de apresentar e qualificar os termos em que esse debate será feito. Trata-se de evitar tanto um debate ambiental nos marcos estabelecidos pela agenda do capitalismo verde, como um reducionismo socioeconômico que ainda predomina na sociedade e nos próprios partidos de esquerda.
Janes Jorge é professor de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Paulo Henrique Martinez é professor de História da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Kestrel: o carro mais eco-friendly do mundo

Movido a energia elétrica, Kestrel tem estrutura a base de cânhamo

Kestrel
O cânhamo tem apresentado milhares de utilidades na fabricação de produtos industriais, medicamentos e alimentos. Henry Ford já conhecia, em 1940, os benefícios do canhâmo e foi responsável pela produção do primeiro carro a partir desse material. O carro projetado, inclusive para utilizar o biocombustível de cânhamo, provou ser dez vezes mais resistente a impactos do que o aço.
Entretanto, o cânhamo não está livre de preconceitos uma vez que pertence a família Cannabis. A ilegalidade da maconha provocou em várias regiões a proibição de cultivo das plantas dessa família. Ainda assim, em alguns países, como o Canadá, não só é permitido o cultivo como há o incentivo à produção industrial a partir dessa planta devido aos seus conhecidos benefícios.
Foi assim que a Motive Industries INC, em parceria com o governo, em Calgary, Canadá, apostou na ideia do Kestrel: o carro elétrico mais eco-friendy do mundo, feito de cânhamo.
Para quatro passageiros, Kestrel tem uma velocidade média de 90km/h e percorre 100 km antes de precisar ser recarregado. Sua estrutura feita com fibras de cânhamo demonstrou ser altamente resistente a impactos e, ao contrário do aço, volta com maior facilidade ao estado original após uma colisão. Somado a isso, a leveza da estrutura permite um impulso na eficiência energética do carro.
Mas ainda melhora: como o cânhamo é de fácil crescimento, pois não há a necessidade de uso exagerado de pesticidas, existe a expectativa de que o Kestrel chegue com um preço muito mais acessível ao mercado.

Project Eve

Project Eve
Kestrel foi o primeiro carro a ser produzido a partir do “Project Eve”. Essa iniciativa tem origem na colaboração entre a Motive e a Toronto Eletric com projetos para a fabricação de mais outros quatro modelos de carros. O objetivo é aumentar a produção de carros elétricos.

Fonte: Greener Ideal

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A vocação da Amazônia

Como a produção de açaí e essências, o reflorestamento e – acredite – as hidrelétricas podem gerar renda e emprego na região e criar alternativas econômicas que convivem bem com a floresta

TÔNIA MACHADO, CÍNTIA MARCUCCI, DE BELÉM, E ISABELLA JAGGI, DE PORTO VELHO

À SOMBRA DA FLORESTA   Luiz Antonio Correa Ferreira, catador de açaí. Sua atividade é mais vantajosa do que derrubar a mata para a pecuária (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)
O caminho de destruição da riqueza natural da Amazônia é conhecido. Começa com as madeireiras predatórias, que retiram as árvores de valor comercial. Depois vêm os carvoeiros, que queimam a vegetação restante em seus fornos. Por fim, chega  o fazendeiro. Ele planta capim, solta o gado e impede a regeneração da floresta. Essa sequência de eventos dura cerca de dez a 15 anos, gera empregos e renda fugazes. Depois, em geral, deixa a região tão pobre quanto começou. O ritmo da devastação caiu 70% nos últimos dez anos, mas continua alto. No ano passado, foi equivalente a quatro vezes o município de São Paulo. Para mudar o rumo da Amazônia, não bastam mais leis severas e fiscalização. É preciso criar alternativas de negócios que gerem mais renda e trabalho com a floresta em pé. Felizmente, essas novas cadeias produtivas já vêm ganhando força. São atividades com potencial para virar vocações sustentáveis para o ambiente e para a população da Amazônia, com benefícios para o resto do país para o mundo. A seguir, alguns dos negócios mais promissores.
AÇAÍ
O verão, estação seca no Pará, vai de julho a dezembro. Nessa época do ano, o entorno da Baía do Guajará, na região de Belém, já respira açaí mal o dia começa. Nos mercados de rua que suprem o consumo local ou nas áreas ribeirinhas, tudo precisa ser feito antes que o sol esquente demais. Em Igarapé-Miri, a 78 quilômetros de Belém, boa parte da população está envolvida na cultura da palmeira de açaí. Em 2012, segundo dados da Empresa de Assistencia Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater-PA), a cidade produziu mais de 160.000 toneladas do fruto. Às margens de um igarapé, o agricultor Luiz Correa amanhece coletando açaí com os dois irmãos na pequena propriedade da família. Por volta do meio-dia, já há 20 latas (de 14 quilos cada uma) do fruto na frente da casa. “Hoje, dá para viver do açaí, e aprendemos como fazer a planta produzir sempre”, diz. “Cortamos as árvores mais velhas, retiramos o palmito, e o resto vira adubo. Sempre cuidando dos brotos, que nascem sozinhos.” Aos 23 anos, ele trabalha desde a adolescência na função. Depois que o açaí se tornou a principal renda da família, eles (Luiz, os pais, quatro irmãos e dois sobrinhos) têm uma casa mais confortável e luz elétrica. Também puderam comprar um barco maior, para que Domingos, pai de Luiz, recolha açaí nas propriedades vizinhas e revenda no porto regional.
A produção depende da floresta saudável. “Como ainda não se obtiveram sucesso e qualidade com a plantação da palmeira em áreas secas, o produto segue extrativista, para ser rentável”, afirma o pesquisador Paulo Amaral, do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Com isso, a opção de desmatar as plantações de açaí é desinteressante. “Na monocultura, a planta fica mais sujeita a doenças e fogo. Por isso, a saída é fazer o manejo sustentável dos açaizais”, afirma João Meirelles, diretor-geral do Instituto Peabiru, ONG dedicada ao trabalho com comunidades da Amazônia. Mesmo para grandes indústrias, o caminho é o extrativismo sustentável. É o caso da Coca-Cola. No segundo semestre do ano passado, ela lançou uma bebida feita da polpa de açaí misturada com banana, pela marca Del Valle. “A premissa é respeitar o potencial local das comunidades com que trabalhamos. Avaliamos antes a disponibilidade para garantir que o produto não sofrerá quebra de safra, nem precise ser descontinuado, e isso prejudique as comunidades”, diz Claudia Lorenzo, diretora de negócios sociais da Coca-Cola.

Nem sempre foi assim. Até os anos 1990, o açaí era apenas consumido pelos paraenses como reforço alimentar, por ser barato e nutritivo. Da palmeira, tiravam o palmito. Os frutos sobravam tanto que eram jogados nos rios. Se aparecesse outra oportunidade que desse mais dinheiro, os ribeirinhos rapidamente colocariam fogo no que estivesse em suas terras, para plantar algo mais rentável. Foi quando o açaí virou queridinho nas academias do Sul e Sudeste, e a demanda cresceu. Hoje, com o açaí cada vez mais apreciado no Brasil e no exterior, é difícil um declínio do consumo que reduza seu valor econômico. O desafio é garantir que a venda de açaí continue pagando bem o produtor, para que ele não desista por algo mais rentável e desmatador.
A SOL Feira do açaí  no Mercado Ver-o-Peso, em Belém. O negócio é realizado  cedo, antes que  o dia esquente (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)
Açaí
Oportunidade
Gera renda e emprego com uma planta que vive nas margens de rios e igarapés. Para explorar, não é preciso desmatar
Risco
Muitos apenas extraem os frutos e esgotam a mata. Isso pode forçá-los a dar outro destino à terra
 ESSÊNCIAS
A indústria de cosméticos e perfumes sabe, não é de hoje, que a Amazônia está cheia de ingredientes ricos e rentáveis. Uma das fragrâncias mais famosas do mundo, o Chanel no 5, usa em sua fórmula a essência do pau-rosa. Antes extraída da madeira, hoje vem de folhas dessa espécie, nativa da floresta. Nomes como andiroba, castanha-do-brasil, buriti, vitória-régia, murumuru, copaíba, cupuaçu e priprioca já são conhecidos do consumidor. Assim como o açaí, são boas alternativas para que a Amazônia dê lucro, gere emprego, s renda e permaneça preservada. Essas essências são o principal sustento de lavradores como Antônio dos Santos, de 62 anos, da comunidade de Campo Limpo, no município de Santo Antônio do Tauá, a 56 quilômetros de Belém, no Pará. Ele trabalha numa cooperativa que planta e extrai espécies como priprioca, capitiú e estoraque para a empresa de cosméticos Natura. “Antes, aqui a gente fazia queimada para plantar feijão, arroz, mandioca. Agora, sabe que dá para o sustento da terra sem destruir”, diz. “Nossos filhos queriam sair daqui para buscar dinheiro nas cidades grandes. Agora, querem continuar nosso trabalho e preservar a natureza daqui.”
Agora a gente sabe que  dá para  o sustento  da terra,  sem destruir”   Antônio dos Santos, agricultor (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)
O desafio para que mais gente seja beneficiada e para que mais empresas invistam em projetos similares esbarra numa legislação ambiental complicada e não exatamente eficaz. O princípio é correto. Segundo a Convenção da Diversidade Biológica, da qual o Brasil é signatário, quando uma empresa decide explorar uma espécie nativa, é preciso que ela pague pelo acesso genético (ao entrar num local para retirar e estudar a planta), pelo conhecimento tradicional (ao aprender com comunidades locais a manipular a planta) e pelo fornecimento da matéria-prima em si. “Da maneira que é hoje, o CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente) tem propostas e normas difíceis de interpretar. Elas acabam sendo um fator de desistência das empresas que pretendem pesquisar a biodiversidade, pois aumentam muito os riscos da iniciativa”, diz o economista João Tezza. Outro desafio é a falta de regularização fundiária da Amazônia. É difícil atribuir responsabilidades numa região onde a propriedade da terra é muitas vezes indefinida. “Isso atrapalha as empresas que querem investir nesse negócio”, afirma Daniel Sabará, diretor executivo da Beraca, empresa que extrai matérias-primas para diversas indústrias, como a cosmética.
RIQUEZA FLORESTAL Detalhe  das raízes  de priprioca. A essência  é usada em cosméticos (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)
Essências
Oportunidade
Desenvolve comunidades por meio da exploração de diversas espécies de plantas que coexistem na floresta
Rrisco
A legislação complexa dificulta os investimentos e abre brechas para a corrupção e a exploração inadequada da biodiversidade
REFLORESTAMENTO
​Em todo o Brasil, 90% da madeira produzida vêm de florestas plantadas. São quase 7 milhões de hectares das espécies exóticas eucalipto e pínus. A maior parte da plantação está nas regiões Sul e Sudeste. Nos últimos anos, as terras já desmatadas da Amazônia surgiram como oportunidade para esse negócio. O maior polo de reflorestamento da região é o município de Paragominas, no Pará. Após entrar para a lista dos mais desmatadores divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente, em 2008, a cidade mudou sua trajetória. O governo local assinou um pacto de desmatamento zero com os produtores rurais e a sociedade civil. O programa, chamado Município Verde, incentivou a regularização dos produtores, o licenciamento de atividades rurais e também aumentou o monitoramento sobre o desmate. Em 2010, veio o resultado. Paragominas foi o primeiro município brasileiro a deixar a lista de desmatadores. No ano seguinte, o programa passou para a esfera estadual e, desde então, 104 dos 144 municípios paraenses aderiram. “Com o programa, assumimos o compromisso da produção rural sustentável”, afirma Justiniano Netto, secretário de Estado do Programa Municípios Verdes. Uma das estratégias de Paragominas foi substituir atividades predatórias ou alternativas sustentáveis, como o reflorestamento.
A empresa de reflorestamento Floraplac foi uma das primeiras na região. Segundo Adalberto Veríssimo, pesquisador do Imazon, ela gera mais renda que as centenas de madeireiras ilegais juntas do passado. Ela fabrica placas de MDF com madeira de florestas próprias plantadas. São 29.000 hectares de eucalipto e de paricá, espécie nativa da Amazônia. Foram plantados em áreas antes degradadas pelo desmatamento. “Encontramos aqui terras excelentes”, diz Silvano D’Agnoluzzo, sócio diretor do Grupo Concrem. A madeira é vendida a empresas do setor moveleiro nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Além de MDF e celulose, as florestas plantadas também podem produzir madeira para a geração de energia. Esse é um dos negócios da Floresteca, instalada no sul do Pará e em Mato Grosso. A empresa é a maior plantadora de teca (espécie asiática) do mundo. Tem 40.000 hectares no Brasil. Por produzir uma madeira nobre, as toras e a madeira serrada são destinadas à marcenaria e à decoração. O resto – cerca de 30% – vai para caldeiras de grandes indústrias, que não precisam mais tirar carvão de matas nativas. “Vimos no plantio de florestas uma oportunidade sustentável de abastecimento de madeira. Assim, freamos a devastação”, diz Sylvio Coutinho, presidente da Floresteca. O uso de carvão vegetal de reflorestamento ainda é pequeno na Amazônia. De acordo com o IBGE, em 2010, apenas 17% de toda a madeira plantada na região virou carvão vegetal.

Essas empresas contam com incentivos. O BNDES Florestal financia o plantio para fins comerciais e a recuperação de áreas degradadas. De 2004 a 2013, destinou R$ 3,7 bilhões ao financiamento de florestas plantadas em todo o país. O Fundo Amazônia, também gerido pelo BNDES, dá crédito a pequenos produtores rurais da região. O programa Municípios Verdes, do governo do Pará, é o maior projeto apoiado pelo fundo. Ainda é pouco diante das facilidades oferecidas a atividades de mais impacto, como a pecuária. Só em 2008, o mesmo BNDES ofereceu R$ 5,7 bilhões a pecuaristas e frigoríficos em expansão na Amazônia. “O Brasil incentivou muito o gado, que pressiona a floresta. Parte desse esforço poderia ir para uma atividade econômica florestal mais competitiva e rentável. Com os incentivos, a indústria em larga escala cresce, e os compradores aparecem”, afirma Veríssimo, do Imazon.

Os ganhos gerados pelo plantio de florestas vão além dos econômicos. Antes de tudo, elas prestam serviços ambientais essenciais para o mundo. As árvores são como bombas hidráulicas. Puxam água profunda do solo e jogam para a atmosfera. Quanto mais cobertura arbórea, mais carbono será retido, e mais biomassa será produzida. “Quanto mais árvore na paisagem, melhor. Mesmo que os biólogos queiram a maior diversidade biológica possível, sempre prefiro que, no lugar de um pasto degradado, haja uma floresta. Ainda que seja relativamente homogênea, como as plantadas”, diz Veríssimo.
HIDRELÉTRICAS
Pode parecer surpreendente a produção de energia hidrelétrica constar numa lista de atividades sustentáveis na Amazônia. A construção das usinas é considerada um dos grandes fatores de desmatamento e destruição ambiental na região. Mas isso pode mudar. Parte dos impactos estão ligados à obra, como o desmatamento no local de instalação das usinas e a inundação de áreas da floresta para formar reservatórios. A maior parte da devastação ocorre fora da área de ação de quem constrói a usina. O Imazon fez uma projeção do impacto gerado por 12 empreendimentos projetados para a bacia do Rio Tapajós. O aumento populacional provocado pelas obras poderá causar, em 20 anos, 950.000 hectares de desmatamento. A falta de planejamento das obras agrava deficiências sociais históricas da Amazônia. No caso da usina de Belo Monte, os índices de violência na região aumentaram depois do início das obras. O município mais próximo da hidrelétrica, Altamira, no Pará, registrou aumento de 62% no número de prisões e de 379% na quantidade de armas apreendidas, entre os anos de 2010 e 2011.
 
ENGENHARIA Interior da usina Santo Antônio, no Rio Madeira. O investimento pode incentivar a devastação ou financiar atividades não predatórias (Foto: Na Lata )
Hidrelétricas
Risco
No modelo atual, o investimento atrai população, agrava problemas sociais e gera desmatamento na região
Oportunidade
O investimento pode servir para oferecer serviços, criar unidades de conservação e estimular atividades não predatórias na região
 Para atenuar o impacto das hidrelétricas, o Brasil apostou nas usinas a fio d’água. Elas contam com lagos pequenos ou inexistentes. As turbinas geram energia apenas com a pressão hidráulica do rio. Essas usinas geram outro problema ambiental. Os reservatórios são fundamentais para garantir a geração de eletricidade em períodos de estiagem. Mesmo quando o país conta com outras fontes de energia limpa, como solar e eólica, precisa de uma fonte segura, quando não há vento nem sol forte. Como o Brasil constrói poucas hidrelétricas com lagos, a capacidade de estocagem caiu. Nos anos 1970, o país tinha água para gerar energia durante um ano sem chuva. Agora, não tem reservas para cinco meses. A alternativa tem sido acionar usinas termelétricas, cuja emissão de gás carbônico é a principal responsável pelas mudanças climáticas. E contar com as centrais nucleares. A presença de reservatório faz pouca diferença nos efeitos indiretos do empreendimento, os maiores. Em 2010, o Estado de Rondônia foi campeão nacional de desmatamento, e a devastação estava justamente na área de influência das usinas (a fio d’água) do Rio Madeira.
Não deveria ser assim. A produção de eletricidade a partir da força hidráulica dos rios precisa da floresta sadia. Cada árvore amazônica, pela transpiração das folhas, bombeia em média 500 litros de água por dia. Sem elas, o ciclo das chuvas se rompe. O prejuízo é nacional. O Sudeste vive a pior seca dos últimos anos em parte por causa do desmatamento na Amazônia, que reduziu o fluxo de umidade na atmosfera do norte para o sul do Brasil. Por isso, deve ser do interesse de quem vive de eletricidade que as árvores, as fábricas de chuva, continuem lá e prestem esse serviço. Em vez de estimular a destruição, os investimentos em hidrelétricas poderiam servir para incentivar a conservação das áreas do entorno e para estimular atividades não predatórias, como a extração sustentável de madeira, o turismo e alguns dos outros negócios citados nesta reportagem. Os recursos também podem ser usados para regularização fundiária na região e para criar unidades de conservação, como parques nacionais, reservas extrativistas (que geram frutos da mata em pé) ou florestas nacionais (em que madeireiras produzem sob concessão, num ritmo que deixa as árvores se regenerar). “A região se sacrifica pelo resto do Brasil, e, para que isso seja mais positivo, uma parte do recurso arrecadado precisa ficar na região, em forma de investimento”, afirma Veríssimo, do Imazon. No caso do Tapajós, um estudo do Imazon mostra que a região deveria receber até R$ 4,9 bilhões por ano para compensar o impacto socioambiental das usinas hidrelétricas.
 
"Vi a obra como um desafio, uma oportunidade para crescer”  Domingos Mendes da Silva, agricultor e piscicultor (Foto: Na Lata )
A Santo Antônio Energia, responsável pela hidrelétrica de mesmo nome no Rio Madeira, fez investimentos para compensar seus impactos. Em três anos, replantou 1.600 hectares e gastou R$ 664 milhões para realocar a população atingida. Alguns se adaptaram. O agricultor Domingos Mendes da Silva foi transferido para o reassentamento de Santa Rita, a 60 quilômetros do centro de Porto Velho. Recebeu cursos técnicos e aprendeu a criar o peixe pirarucu, espécie típica do Madeira, com valor comercial. Hoje, ele já tem sete tanques em sua propriedade e, além de vender os peixes, aproveita a água usada na criação para irrigar suas plantações com frutas também típicas da região, como o açaí. Histórias assim ainda são exceção na Amazônia. Aproveitar os empreendimentos para incentivar a conservação é a única forma de garantir que a Floresta Amazônica continuará a ser a maior usina de chuvas do Brasil.
 
MADEIRA DA LEI Produção de mudas da Floraplac. A empresa planta em área desmatada (Foto: divulgação/Floraplac)
reflorestamento
Vantagens
As plantações de árvores em áreas desmatadas criam uma alternativa para produzir madeira e carvão e reduzem a pressão sobre a floresta nativa
Riscos
Por falta de fiscalização, algumas empresas podem desmatar floresta nativa para plantar pinus ou eucalipto

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Instituto Akatu lança campanha pelo consumo consciente da água


por Redação do Akatu
semagua Instituto Akatu lança campanha pelo consumo consciente da água
Instituto Akatu lança campanha pelo consumo consciente da água

Na campanha #águapedeágua, instalações são espalhadas por São Paulo com o objetivo de alertar como seríamos “miseráveis” sem a água, esse elemento vital à existência humana 
O #águapedeágua é uma campanha de mobilização da sociedade para o consumo consciente de água. Diante da crise hídrica que vivemos em São Paulo e em outras regiões do País, a situação exige uma ação coletiva, integrada e de larga escala, com a participação de vários atores sociais.
Na oferta de informações à população, a campanha #águapedeágua busca “desautomatizar” o consumo de água, por meio do engajamento de todos, como cidadãos, em uma nova postura de uso consciente desse recurso imprescindível, de forma permanente.
A plataforma aguapedeagua.org.br, que foi construída pelo Akatu com o apoio da Olivas Digital, Estilingue Filmes e SambaPhoto, apresenta um amplo repertório de dicas sobre consumo consciente de água e terá vídeos colaborativos em breve.
Para chamar a atenção das pessoas para a importância das ações de cada um reduzindo o desperdício de água, a agência de publicidade Taterka criou várias ações de lançamento da campanha com o slogan “Sem água somos todos miseráveis”, como intervenções em espaços abertos e de grande circulação do público, além de ações de divulgação na mídia (impressa, rádio e redes sociais), com a hashtag #águapedeágua.
“Sem água somos todos miseráveis”
Se a água acabasse neste momento, como seria a vida de cada um de nós? Pensando na finitude de um dos recursos naturais mais vitais à existência humana, a estratégia da campanha criada pela Taterka inclui, dentre muitas ações, a montagem de divertidas e curiosas instalações em vários pontos da cidade de São Paulo, com o objetivo de conscientizar a população sobre a importância do consumo consciente da água.
Com o slogan “Sem água somos todos miseráveis”, cada instalação mostrará como personagem um produto que só existe para trazer água às pessoas. Uma mangueira “pede”: “Estou sem trabalho. Por favor, ajude”. Um bebedouro “clama” por um copo de água. Há, ainda, um filtro de água que “diz”: “Estou aposentado. Por favor, me ajude”. Com as instalações, a campanha pretende provocar as pessoas a procurarem e sugerirem soluções para o uso consciente da água na plataforma aguapedeagua.org.br.
“Como um bebedouro, um filtro de água ou uma mangueira poderiam ser utilizados caso faltasse água? Todos eles necessitam dela para ‘sobreviver’, assim como nós. Nosso objetivo é mobilizar as pessoas e lembrá-las de que a água é uma riqueza que precisa ser preservada por todos nós”, diz Eduardo Simon, Sócio e VP de Operações da Taterka. As intervenções estarão expostas em locais como Largo São Bento, Praças Patriarca e República, Campus da FAAP, Conjunto Nacional (avenida Paulista) e algumas unidades do Senac.
“As pessoas talvez não tenham se dado conta do que significa viver sem água. A situação crítica de abastecimento de água em São Paulo nos mostra que a falta da água é uma possibilidade muito próxima – nessa cidade e no Brasil. E o que é possível fazer? A campanha #águapedeágua tem o objetivo de ajudar as pessoas a descobrirem e colocarem em prática comportamentos que podem contribuir para mudar esse cenário”, afirma Helio Mattar, diretor-presidente, do Instituto Akatu.
A produção fotográfica da campanha é assinada pelo fotógrafo Mauricio Nahas e o material será utilizado na produção de dois filmes, um na versão de 30’ e outro de 15’. A trilha será feita pela Banda Sonora. Os vídeos reforçam a estratégia de impactar as pessoas de maneira inusitada e de promover uma reflexão sobre como é possível mudar a rotina para consumir água de forma consciente.
* Publicado originalmente no site Akatu.
(Akatu)