quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

domingo, 21 de dezembro de 2014

Os animais que as próximas gerações podem não conhecer

No Brasil, 1 173 animais estão ameaçados de extinção, de acordo com o último estudo do Ministério do Meio Ambiente. São animais como a baleia-azul ou o boto-cor-de-rosa, que podem desaparecer no próximo século

Rita Loiola
Baleia, um dos 26% dos mamíferos ameaçados de extinção no planeta
Baleia, um dos 26% dos mamíferos ameaçados de extinção no planeta (Stringer/Reuters/VEJA)
Em todo o mundo, 41% dos anfíbios, 26% dos mamíferos e 13% dos pássaros estão próximos de desaparecer. No Brasil, são 1 173 animais ameaçados, de acordo com o último estudo do Ministério do Meio Ambiente, divulgado em dezembro. Se as estatísticas continuarem crescendo, em meio século, animais como o a onça-pintada, o boto-cor-de-rosa ou o tatu-bola talvez não existam soltos na natureza. 
Além desses bichos carismáticos, que apelam à emoção e são facilmente estampados em camisetas ou broches que convidam à preservação, uma grande população de animais nem tão simpáticos, como besouros, pererecas ou lacraias tem diminuído drasticamente. De acordo com as pesquisas, a maior parte da população de invertebrados, como abelhas ou borboletas, sofreu um declínio de 45% desde os anos 1970. No mesmo período, os vertebrados tiveram uma queda populacional de 30%. No total, 322 espécies desapareceram nos últimos 500 anos.
Os dados são baseados em estimativas, pois os pesquisadores conhecem cerca de 4% de todos os prováveis 11 milhões de animais de habitam o planeta. "Espécies raras e desconhecidas provavelmente estão ainda mais ameaçadas, pois descobrimos primeiros e prestamos mais atenção aos animais comuns", diz o biólogo americano Clinton Jenkins, pesquisador visitante da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), no Brasil.  
Para o equilíbrio ambiental e o bem-estar humano, o decréscimo dos animais na natureza é problemático. Perder a biodiversidade pode significar o surgimento e crescimento de doenças em humanos e a diminuição dos recursos naturais que movem a economia mundial. Confira abaixo alguns animais fundamentais para o bom funcionamento da natureza: 

Animais fofos da fauna brasileira que podem desaparecer 

4 de 10

Ararinha-azul ('Cyanopsitta spixii')


A história da ararinha-azul no Brasil é trágica. Conhecidas há 150 anos, existiam apenas três exemplares em 1986 – que não se reproduziram. Desde outubro de 2000, ninguém mais encontrou nenhuma ararinha-azul na natureza, apesar de terem sido percorridos mais de 55.000 quilômetros desde 1990 em busca dos pássaros. O que provavelmente levou à extinção da ave de pouco mais de 55 centímetros de comprimento e plumagem em vários tons de azul foi o tráfico de animais e a degradação de seu ambiente, no sertão da Bahia e Pernambuco. É considerada extinta na natureza pelo Ministério do Meio Ambiente e a IUCN.

Espécies ameaçadas de extinção no Brasil que não despertam a comoção pública

1 de 8

Morcego ('Fueripterus horrens')


Essa espécie de mamífero voador é rara e habita cavernas da América do Sul. No Brasil, sua população diminuiu em decorrência da atividade mineradora. Os pesquisadores estimam que, nos próximos dez anos, a espécie sofrerá um declínio de pelo menos mais 30%. Ao contrário da maior parte dos morcegos, essa espécie se alimenta de insetos, como borboletas. É classificada com vulnerável pelo Ministério do Meio Ambiente brasileiro. 
fonte   http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/os-animais-que-as-proximas-geracoes-podem-nao-conhecer

Embedded image permalink
We don't own this Planet, we only surf on it. ~Jack Johnson 
(Photo: Clark Little)


Maravilha!
            Com os tentáculos enrolados em uma pose nunca vista antes, este polvo Dumbo (‘Grimpoteuthis’)
                   chamou atenção de pesquisadores durante uma expedição ao Golfo do México - NOAA/Nature

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

....demorou.

Secretaria do Ambiente anuncia parceria com ONG internacional para ampliar reciclagem de PET

Baixada Fluminense recebe rede de cem ecopontos para a destinação correta de entulho e garrafas PET
Foto: Cezar Muller
Foto: Cezar Muller
por Ascom SEA
04/12/2014 – 16:56h
O secretário de Estado do Ambiente, Carlos Portinho, anunciou em visita à usina de reciclagem CPR, em Xerém, nesta quinta-feira (4/12), uma parceria inédita com a ONG R20, do ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger, e a Associação Brasileira dos Recicladores de Pet (Abrepet). A iniciativa visa à expansão da cadeia de reciclagem de garrafas Pet no Estado do Rio de Janeiro com maior participação da sociedade, as cooperativas de catadores, as indústrias de reciclagem e o poder público.
Nesse sentido, a Secretaria de Estado do Ambiente trabalha na implantação de cem ecopontos – locais de processamento de resíduos da construção civil, que também servirão de pontos de coletas de garrafas pets – na Baixada Fluminense. A previsão é entrarão em operação seis ecopontos, até março de 2015.
“Esse trabalho da coleta é de grande importância para a indústria de reciclagem, pois serve de matéria-prima para fabricação de embalagens. Ainda hoje nos importamos muita matéria-prima da China que, por incrível que pareça, é mais barato do que o material reciclado aqui. E isso inclusive foi objeto de crítica da Secretaria do Ambiente, não só pela necessidade de inclusão dos catadores e de remuneração dos municípios nesse processo de logística reversa, mas também da desoneração do setor para que a indústria de reciclagem e novos produtos possam ter na sua composição um maior percentual de material reciclado”, declarou o secretário do Ambiente Carlos Portinho.
O conselheiro estratégico da ONG R20 (Regions of Climate Action), Terry Tamminem, que também participou da visita à usina de reciclagem, ressaltou a importância de se acabar com o desperdício de garrafas, cerca de 50% do total de pets produzidas no Brasil vão parar em aterros, lixões ou no meio ambiente:
“O desperdício desses recursos também é um desperdício de dinheiro, mas imagine ainda o que é necessário para extrair todo esse petróleo ao redor do mundo inteiro, transportar e refinar para fazer plástico. Em algum ponto esse petróleo vai acabar. Não faz o menor sentido usar uma garrafa uma vez e então enterrá-la num aterro e depois ter que obtê-la outra vez em forma de petróleo. A única coisa que faz sentido é tentarmos chegar ao desperdício zero e, para isso, estamos animados em trabalhar com o Governo do Estado.”
O presidente da Abrepet, Edson Freitas, revelou que já foram gastos, nos últimos quatro anos, R$ 125 milhões na implantação de aterros sanitários, enquanto isso R$ 1.5 bilhão em garrafas pets foram desperdiçadas nesses locais. “Não falta educação, falta opção. Há uma carência nas indústrias de todo o Brasil por essa matéria prima e com uma parceria como essa, que oferece opções a população a dar destinação adequada a essas embalagens, eu posso garantir que o Rio de Janeiro vai se tornar a capital da reciclagem em 2015.”
Outra parceria da SEA com a ONG R20, o projeto que visa à substituição de lâmpadas incandescentes por iluminação de LED, mais eficaz e econômica, será inaugurado neste sábado (6/2) em Nova Friburgo.
“Estivemos recentemente em Paris para receber o prêmio de reconhecimento da R20 para o projeto Fábrica Verde, de reaproveitamento de lixo eletrônico e envolvimento da comunidade no processo de reciclagem. Ao mesmo tempo nessa viagem nos firmamos um protocolo de cooperação com apoio da R20 para substituição das lâmpadas LED com financiamento do fundo internacional. Vamos inaugurar em Friburgo essa nova iluminação de LED e em breve estaremos levando essa iniciativa para o maior número de municípios possíveis”, disse Portinho.

fonte: globalgarbage.org

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O mito do ano: “o desmatamento da Amazônia provocou a seca no Sudeste”

Vejo muita gente dizer que o desmatamento da Amazônia causou a seca no Sudeste. O dano que provocamos à floresta teria desligado a “bomba de umidade” e interrompido “os rios voadores” que mandam umidade para Minas Gerais e São Paulo. “Esse crime ambiental tem a ver com a falta d’água na maior cidade da América Latina “, disse o Fantástico recentemente. “Nos aproximamos de um futuro desértico e a culpa é toda nossa”, concluiu outra reportagem em tom de lição de moral.
Nada disso. A ideia de que há um culpado para a seca não tem a ver com a Amazônia. Tem a ver com os astecas.
Sim, com os astecas. Quando sofriam uma colheita ruim ou uma estiagem no Vale do México, os astecas julgavam o infortúnio causado pelo clima como um castigo.  Achavam ter irritado os deuses e, para acalmá-los, realizavam centenas de sacrifícios humanos, atirando corpos decepados pelas escadarias das pirâmides de Tenochtitlán.
Como toda civilização que passou pela Terra, os astecas caíram na “falácia do mundo justo”, a tendência de acreditar que o universo segue uma lógica moral. Por causa dessa tendência cognitiva, é tão fácil para nós julgar desgraças como castigos. Se vivemos uma situação ruim, é porque fizemos por merecer.
Quando alguém comete a bobagem de culpar uma vítima de estupro (“foi horrível, mas ela não deveria sair por aí com uma saia tão curta”) ou de um assalto (“não precisava sair por aí ostentando um relógio tão caro”), não está expressando só um machismo ou marxismo da pior espécie. Também se deixa levar pela ideia de que uma força oculta pune quem não se comporta.
Como os astecas de oito séculos atrás, tem muita gente encarando a seca do Sudeste como um castigo. Se estamos sofrendo hoje, é porque nos comportamos mal no passado. Qual foi, então, o pecado que cometemos? Deve haver algum, é preciso procurar… Sim, claro! O desmatamento da Amazônia! Difícil resistir à tentação de relacionar a desgraça da seca à maldade do desmatamento.
Mas uma coisa não tem a ver com a outra. Conversei com três especialistas em dinâmica climática e eles foram categóricos. “Grande parte da comunidade científica concorda que não é possível fazer uma relação direta entre desmatamento da Amazônia e a seca no Sudeste”, diz Tercio Ambrizzi, diretor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.
“A afirmação de que as secas do Sudeste estão sendo causadas pelo desmatamento é leviana, sem base científica e contrária ao bom senso”, afirma Luiz Carlos Molion, representante dos países da América do Sul na Organização Meteorológica Mundial (OMM). “A umidade para as chuvas do Sudeste não é produzida na Amazônia. Ela vem do Oceano Atlântico e apenas passa sobre a floresta. As raízes das árvores consomem mais umidade do que as folhas liberam para a atmosfera.”
“O resultado de estudos dos últimos dez anos mostra claramente que o desmatamento atual não tem nenhum impacto no regime de chuvas do Sudeste”, me disse Francis Wagner Silva Correia, coordenador do núcleo de Modelagem Climática do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Se chove no Brasil, agradeça mais aos Andes que à floresta.
Mais que a floresta, o que garante chuvas no Brasil é a Cordilheira dos Andes. Caso ela não existisse, a umidade que entra na Amazônia pelo Atlântico seguiria direto para o Pacífico. Principalmente no verão, época de mais chuvas na região Norte, a umidade bate na cordilheira e volta sentido sul, alimentando as chuvas de verão de boa parte do país.
Esse fluxo não se desligou em 2014. A diferença é que, por causa da bolha de calor que misteriosamente se instalou no Sudeste no verão passado, as chuvas caíram antes de chegar a Minas Gerais ou São Paulo. Enquanto as represas esvaziavam em São Paulo, o rio Madeira teve a maior cheia já registrada.
Há cientistas que especulam até mesmo que haveria mais chuvas no Sudeste caso toda a floresta se transformasse num enorme estacionamento de shopping. “Na hipótese absurda de se desmatar completamente a Amazônia, a rugosidade da floresta deixaria de existir, choveria menos por lá e um fluxo de umidade um pouquinho maior que o atual seria transportado para o Sudeste, talvez aumentando as chuvas”, diz Molion.
Calma lá: não estou dizendo que devemos parar de nos preocupar com a floresta e asfaltar as margens do rio Negro. Há muitas outras razões para se preservar a Amazônia que este artigo não derruba. Mas não dá pra deixar de lado o rigor científico só para sensibilizar o público. Quem faz isso troca a sensatez por uma noção de culpa tão mística quanto a dos astec


BRA

Embedded image permalink

BRASIL 2015

sábado, 6 de dezembro de 2014

O ambientalismo na pauta


Por Luciano Martins Costa
A anedota sobre o bom vendedor que consegue até mesmo empurrar uma geladeira para um esquimó está se tornando realidade. Segundo reportagem publicada pelo Globo na quarta-feira (3/12), os inuítes, povo tradicional do Ártico, estão adquirindo congeladores para armazenar os alimentos, por causa do derretimento das geleiras e do aumento da temperatura média no Polo Norte. A crise ambiental se acelera e muitos deixam as regiões isoladas e vão viver em cidades maiores na Groenlândia ou no Canadá.
O relato pitoresco vem no pé de uma ampla reportagem sobre o papel das populações indígenas da Amazônia na manutenção do equilíbrio ambiental na região equatorial. Um estudo divulgado durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acontece em Lima, no Peru, revela que as áreas ocupadas por comunidades tradicionais, em nove países latino-americanos, estão entre as principais regiões armazenadoras de carbono em todo o planeta. Portanto, há mais do que razões humanitárias ou antropológicas para a defesa desses territórios: eles contribuem para o bem-estar de toda a humanidade.
Entre os principais diários de circulação nacional, o jornal carioca é o que mais investe na cobertura do evento, recolocando na agenda o debate sobre a questão climática, que foi relegado a segundo plano com o noticiário mais intenso sobre economia e política. Os outros jornais publicam reportagens pontuais sobre casos relacionados de alguma forma à questão ambiental, como o protesto dos índios Mundurukus, no Pará, contra a construção do complexo hidrelétrico do Tapajós ou a morte de periquitos num condomínio de Manaus.
A cobertura mais ampla da conferência da ONU cria a oportunidade de devolver ao tema das mudanças climáticas o espaço perdido no noticiário nos últimos anos. Depois de um importante avanço, documentado ano a ano pelo Instituto Ethos, a questão da sustentabilidade do modelo civilizatório vem perdendo relevância na imprensa brasileira, fazendo desaparecer das páginas de jornais e revistas e dos noticiários eletrônicos os profissionais que se haviam especializado nas diversas vertentes dessa complexa área de conhecimento.
Jornalismo e sustentabilidade
A sobrevivência de alguns projetos de mídia especializada, como a agência Envolverde (ver aqui), é quase inexplicável diante da falta de apoio publicitário. No entanto, em mais de uma década essa agência tem sido uma das principais fontes de formação de jornalistas especializados, alguns dos quais passaram a atuar em ONGs, empresas, entidades governamentais e na chamada grande imprensa. Um movimento iniciado há cerca de oito anos, pela criação de uma política de comunicação para estimular o jornalismo crítico na temática ambiental, esbarrou na indiferença das autoridades federais.
Com o interesse da mídia hegemônica reduzido a quase zero, a cobertura da crise climática retrocedeu ao tempo do mico-leão, com reportagens pontuais que reduzem o complexo tema da sustentabilidade a historinhas infantis. Nem mesmo o grave problema hídrico da região Sudeste, que poderia levar à discussão sobre o desmatamento das matas ciliares e a degradação das fontes de água, foi capaz de sensibilizar as redações para a necessidade de encarar o processo de expansão das cidades e a falta de racionalidade na exploração da terra.
Já se disse, neste Observatório, há alguns anos, que a mídia tradicional não vai avançar na busca de conhecimento sobre o problema climático porque as perguntas irão conduzir, necessariamente, a questões incômodas para o breviário da economia de mercado, como a sustentabilidade do sistema econômico, as condições para o uso da propriedade e a apropriação, pelo interesse privado, de bens coletivos como a água e a atmosfera. No entanto, há um vasto espaço a ser explorado entre a omissão atual e um debate profundo sobre modelos civilizatórios.
Não basta, por exemplo, publicar com estardalhaço os números parciais do desmatamento na Amazônia e, ao mesmo tempo, ignorar o avanço das grandes culturas e da pecuária sobre regiões protegidas. Por isso, a reportagem do Globo é um avanço. Tímido, relativo e superficial, mas suficiente para colocar em outro patamar o debate sobre a importância de preservar as reservas indígenas.
O papel dessas comunidades na redução das emissões de carbono merece mais do que essa página isolada, mas já é alguma coisa no meio do preconceito geral que certa o tema.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

País rico é país sem pobreza?

Leandro Narloch

Nos últimos quatro anos, os brasileiros tiveram que conviver com a frase “país rico é país sem pobreza”. Ela esteve em toda logomarca, em toda propaganda do governo federal. Por isso é o caso de perguntar: é válida a afirmação do slogan de Dilma?
A princípio, é difícil discordar da frase. Mesmo se parte da população tiver picanha na mesa e iPhone no bolso, ainda estaremos mal se a outra parte seguir faminta. Em 2011, quando o governo lançou o slogan, houve quem reclamasse da obviedade da afirmação – é claro que país rico é país sem pobreza, disseram.
Mas a frase não é óbvia. Na verdade, ela esconde um problema fundamental: é muito difícil não haver pobres num país rico. Essa condição não é estável, pois países ricos atraem pobres. Um país rico e sem pobreza até é possível, mas somente se o mundo todo enriquecer ao mesmo tempo ou se impedirmos migrações erguendo muros e cercas nas fronteiras.
O problema fica claro se o leitor imaginar exatamente o que o slogan propõe, um país rico e sem pobreza. Digamos que, ao acordar amanhã de manhã, você percebe que tudo deu certo no Brasil. O menor salário pago no mercado chega a 3 000 reais. Mesmo a turma do último tijolo da pirâmide social vive com alguma dignidade. Não há favelas ou indigentes; não sobrou sequer um único sujeito que reutilize o copo de requeijão ou seque roupa atrás da geladeira. Incrível.
A alta de salários causa mudanças no estilo de vida dos brasileiros. Vagas em trabalhos menos produtivos que 3 000 reais por mês se extinguem. Uma família de classe média, que dispõe de apenas 900 reais para pagar alguém que limpe a casa, passe a roupa e passeie com o cachorro, terá de se virar com o serviço doméstico.
Mas 900 reais por mês é luxo em alguns países latino-americanos. Haitianos logo perceberão a demanda não atendida por empregos domésticos no Brasil e virão contentes trabalhar aqui. Como demonstram os haitianos que já se mudaram ao Brasil, 900 reais para eles significa um ganho e tanto. Podem economizar todo mês o equivalente ao salário integral que ganhariam no Haiti – onde o salário mínimo, para quem não está entre os 40% de desempregados, é de 13 reais por dia.
Acontece assim o jogo preferido dos economistas: o jogo de soma diferente de zero. No futebol ou no pôquer, a soma dos resultados é nula. Um time precisa perder para o outro ganhar. Quem tem duas damas no pôquer perde as fichas para o sortudo que tirou uma trinca de setes. Não é assim nos acordos voluntários da economia. As fichas se multiplicam; todos voltam para casa com um pote maior. Você e o haitiano jogam. E os dois ganham.
A chegada em massa de haitianos, ainda maior que a atual, faria bem a eles e às famílias brasileiras que os contratariam, mas há uma consequência. Eles trariam pobreza para dentro das linhas imaginárias brasileiras. Alguns dos recém-chegados morariam em cortiços com cinco pessoas no mesmo quarto. Outros, para economizar no transporte, montariam casebres em terrenos próximos à casa de brasileiros enriquecidos, criando cenas tocantes de contraste. Em pouco tempo, não seríamos mais um país rico e sem pobreza.
paraisomorumbi
Sim, há uma boa notícia na famosa foto da desigualdade social
Os jornais mostrariam fotos de gente pobre no Brasil, e essas imagens circulariam pelo mundo. Os políticos da oposição alardeariam dados sobre a péssima qualidade de vida dos novos moradores que, segundo eles, seriam explorados pelas famílias de classe média. Ainda que todos os pobres envolvidos na história tivessem melhorado de situação.
Quanto esse exercício de imaginação explica a realidade brasileira? Um bocado. Muita gente entristece diante da desigualdade sem notar que aquelas pessoas estão numa situação melhor que no passado. É o caso da famosa foto acima, da favela de Paraisópolis ao lado de apartamentos de luxo do Morumbi. Quando livros didáticos ou provas de vestibular escolhem essa imagem para retratar a desigualdade social – e fazem isso com frequência –, comparam a riqueza dos apartamentos com a miséria da favela. Mas a comparação mais adequada é dos moradores da favela hoje e no passado, antes de mudarem para a metrópole. “A pobreza urbana não deveria ser comparada à riqueza urbana”, diz o economista Edward Glaeser, professor de Harvard e o mais celebrado especialista em economia urbana dos Estados Unidos. “As favelas do Rio de Janeiro parecem terríveis se comparadas a bairros prósperos de Chicago, mas os índices de pobreza no Rio são bem menores que no interior do Nordeste brasileiro.”
Por essa nova comparação, a famosa foto da desigualdade social mostra uma excelente notícia. Quem mora em Paraisópolis vive muito melhor do que se tivesse permanecido no sertão nordestino, nas lavouras de boias-frias do Paraná ou entre os escombros de Porto Príncipe. Não importa se a miséria está mais aparente ou mais próxima; o principal é que para os miseráveis ela tenha diminuído. Glaeser arremata:
A pobreza urbana não deveria envergonhar as cidades. As cidades não criam pobres. Elas atraem pobres. Elas atraem pobres justamente porque fornecem o que eles mais precisam – oportunidade econômica.
Esse raciocínio vale não só para cidades, mas para países. Mesmo se enriquecer, o Brasil jamais será um país sem pobreza. E é bom para os pobres que seja assim.